Lançado em: maio/2010
apresentação do livro
Livro recupera a genialidade de Maria Martins

Organizado por Charles Cosac, com ensaios de Francis M. Naumann, Dawn Ades, José Resende e Veronica Stigger, Maria recupera a trajetória da escultora, de carreira brilhante no exterior, mas ainda carente de reconhecimento pelo público brasileiro.
Ensaio visual inédito registra os trabalhos da escultora, fotografados especialmente para o livro pelo artista carioca Vicente de Mello, que percorreu diversas cidades no Brasil e no mundo em busca das obras.
No texto de abertura da edição, o crítico Francis M. Naumann conta o seguinte episódio, relacionado à primeira exposição individual de Maria Martins no exterior: “Na tarde do dia 14 de outubro de 1941, uma exposição de esculturas de uma artista brasileira praticamente desconhecida foi inaugurada na Corcoran Gallery, em Washington. A capa do catálogo trazia estampado o retrato em perfil de uma mulher desenhado a pena por Candido Portinari. Se Portinari havia sido fiel ao seu modelo, tratava-se de uma mulher atraente e elegante, mas fora isso pouco mais se ficava sabendo a respeito da escultora.”
Passados quase 70 anos desde a sua primeira individual nos Estados Unidos, Maria Martins (1894-1973) permanece uma artista da qual pouco se sabe no Brasil, apesar de sua importância inegável para a história da arte moderna no país e no mundo. Uma das principais artistas brasileiras do século XX, admirada por Marcel Duchamp e André Breton – que dizia ver em sua obra escultórica “vozes imemoriais”, que cantavam “a paixão do homem, do nascimento à morte” –, continua sem a reflexão que lhe é de direito no panorama artístico nacional.
“O livro será muito importante para entender a evolução da carreira de uma artista que começou a produzir tarde, aos 47 anos, e durante um curto período, de apenas 10 anos. Apesar de não ter produzido muito – 1/4 do que produziu Frida Kahlo, por exemplo – Maria Martins deixou uma obra importante e contundente”, afirma Cosac, que coordenou todo o trabalho de pesquisa do livro, uma experiência editorial de grande envergadura, e que resultou no trabalho minucioso de cronologia apresentado no volume.
Uma artista à frente de seu tempo
Quando fez, pela primeira vez, uma exposição individual no Brasil, em 1950, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, aos 56 anos, Maria Martins não foi bem recebida pela maior parte da crítica brasileira, o que só veio acontecer seis anos mais tarde, durante sua individual no MAM do Rio de Janeiro. Não foi assim no período em que viveu no exterior. Ao iniciar sua carreira nos Estados Unidos, nos anos 40, foi logo reconhecida como uma artista promissora. Participou de importantes exposições e teve suas obras adquiridas para o acervo permanente dos principais museus americanos - MoMA, Art Museum of the Americas, Philadelphia Museum of Art, Museum of Fine Arts de Houston, Cleveland Museum of Art, The Baltimore Museum of Art, para citar apenas alguns – além de ter participado, em 1947, da Exposição Internacional do Surrealismo, na galeria Maeght, em Paris, ao lado de todos os grandes nome da vanguarda europeia.
Maria Martins sempre teve uma visão contemporânea do fazer artístico, por isso soube usar o entusiasmo inicial no meio artístico em torno de sua obra para se estabelecer como uma artista profissional. Mulher do embaixador brasileiro em Washington, Carlos Martins, a artista frequentava as altas rodas da sociedade na América, foi próxima de Peggy Guggenheim e de Nelson Rockefeller. Suas exposições foram amplamente divulgadas na imprensa norteamericana e eram sempre acompanhadas de catálogos que eram, em si, obras de arte, uma inovação para a época.
Seus relacionamentos artísticos também foram intensos. Maria conheceu Mondrian, Frida Kahlo, Brancusi, foi aluna de Jacques Lipchitz. Mas é a sua relação com os surrealistas a mais conhecida e divulgada. André Breton e Duchamp foram seus principais interlocutores, e com o último chegou a ter um intenso relacionamento amoroso que resultou em uma influência mútua.
No ensaio “A Escultura surrealista de Maria Martins”, texto que abre o livro, Francis M. Naumann – um dos primeiros historiadores a realizar uma pesquisa sistemática acerca da vida e da obra da artista – especialista em Duchamp, sobre o qual escreveu livros indispensáveis – examina o início desta importante relação de Maria com os surrealistas.
Para ele, uma das principais esculturas da artista, L’Impossible (O impossível) pode ter sido criada como um eco de sua relação com Duchamp. Ele, Breton e outros que, durante a ocupação alemã na Europa, se refugiaram nos Estados Unidos, passaram reconhecer nela uma artista vanguardista, já que enxergavam em suas criações a metáfora do automatismo psíquico surrealista. Breton se encantou sobretudo com os temas das primeiras peças de Maria Martins - a natureza, os mitos e lendas da Amazônia - referências que, por um lado, se afastavam completamente da cultura dos velhos centros e, por outro, recriavam traziam um novo espírito moderno.
Febre da selva
No texto seguinte, intitulado “Criaturas híbridas”, a crítica britânica Dawn Ades – especializada em arte latinoamericana, fundadora do Departamento de História e Teoria da Arte da Universidade de Essex – inicia sua análise das mais decisivas obras de Maria Martins a partir da recepção de seus trabalhos na cena surrealista, além de esmiuçar a maneira como surgem as interpretações de suas esculturas.
No período, a guerra colocava em xeque a civilização europeia e anunciava falência de um projeto determinado pela razão. Nesse contexto, as leituras encantadas (e encantadoras) do líder surrealista André Breton, se fixando em uma “febre da selva” presente na arte de Maria, se mostram, antes de tudo, um sintoma – assim demonstra Dawn Ades – desse desejo e desespero por uma alternativa (que naturalmente viria das culturas “primitivas”), e menos um entendimento real do potencial oferecido pelas criações de Maria Martins. É notável o modo como, em Maria, a observação da realidade era conduzida por meio de uma intensa abstração, na qual os conceitos gerados pela história, filosofia e cultura mantêm uma incansável conversação com o real.
No ensaio “Escritos de Maria Martins: 1958-65”, Veronica Stigger descobre o lado desbravador de Maria, que no final dos anos 50 percorreu a Índia, a China, o Egito, Israel e Japão e escreveu alguns livros a partir destas viagens – O planeta China, Brama, Gandhi e Nehru, que constituem a série Ásia Maior, além Nietzsche, o primeiro volume da série Deuses Malditos. Nestas viagens, entrevistou Mao Tse Tung e o Dalai Lama e chegou a considerar a pintura chinesa superior à ocidental. Segundo Veronica, “para além da mera anedota, essa observação de Maria Martins reforça uma disposição que, de certo modo, subjaz à sua obra plástica: uma implícita crítica à tradição da arte ocidental (ou pelo menos a certos traços dessa tradição); não por acaso, ela se aproximou dos surrealistas, que, como ela, demonstraram um grande interesse pela arte extraeuropeia.”
Por fim, o artista José Resende faz uma rara aparição ensaística, propondo a aproximação da obra e do pensamento de Maria Martins por meio do relato de uma experiência acontecida em seu próprio processo criativo. A partir desta plataforma, investiga o grande desafio proposto por Maria: sua condição misteriosa. Como escreve Resende, “é o sentido, que para ela surge da libido, na expressão do erótico como forma de ser e, assim, saber”.
O projeto gráfico
Maria chega em duas versões às livrarias, todas em capa dura e impressas em papéis de alta qualidade – Garda e Pólen®. O diferencial está na edição de colecionador, produzida com encadernação especial, em pasta revestida com tecido Saphir na cor preta e com o título da obra em hot stamping. A edição especial também está dividida em duas partes: a primeira traz o ensaio visual e os textos críticos; a segunda, a cronologia e bibliografia da artista, que pode ser destacada da pasta e utilizada em pesquisas em museus e bibliotecas. O diretor-editorial da Cosac Naify, Cassiano Elek Machado, justifica a escolha: “Maria Martins sempre teve um cuidado especial com os catálogos de suas exposições. O projeto gráfico diferenciado do livro dialoga com este apuro estético que a artista manteve com as peças gráficas que apresentavam suas obras”.